31 dezembro 2014

dia do calendário.

Primeiro, escrevi. Por algum motivo, apagou-se. Não fui eu. Simplesmente, deixaram de estar ali as minhas palavras. 

Estava escrito que eu não creio na mudança desta noite e nos balanços pré-definidos, nem nas uvas passas, nem no pé direito. Estava escrito que eu não uso o calendário, nunca me deu jeito. Eu tinha escrito que a meio de janeiro já ninguém se lembra de ser simpático como hoje e amanhã. Pois, eu tinha escrito isso tudo é apagou-se. Irónico. Como o tom de fundo que muitas vezes me premeia. 

Ser livre é abdicar do calendário. Sem culpas. Era isso que eu estava a dizer e depois aquilo desapareceu. 

Ser livre sai caro. 

Ser livre é fazer balanços quando bem se entende. E desejar a toda a hora. 

Não tenho desejos novos para esta noite. Só os que já tinha ontem, no meu "ontem" (e que grande ele está). Fará parte, isto de decidir que se vai mudar hoje. Fará parte da necessidade humana em definir a esperança, compactando-a num momento. 

Gosto de pessoas. Gosto da humanidade das pessoas. Sobretudo, consigo apreciá-la à distância. Qualquer telefone, Facebook e afins acabarão com isso. Mas hoje, brindemos juntos! Daqueles que têm tempo para nós! 


25 novembro 2014

Ele há coisas que fazem as pessoas mostrar que não têm nada que fazer


1. Fazer likes em páginas do Facebook completamente à toa, por causa da griffe, essa movida que faz sonhar as raparigas magras e as altas e os rapazes confusos e excessivamente musculados. 

2. Dizer mal dos políticos sem saber sequer quem eles são, de onde vêm, o que querem e para onde vão. 

3. Afirmar, com veleidade, que são espetaculares e por esse motivo podem articular frases feitas publicamente, como se fossem sábios ou génios da lâmpada (fundida).

4. Comer sushi e beber gin's de todas as espécies e cores, por ficar bem e por causo do estilo que manda segurar em copos de balão, quando os gin's antigos vinham em copos altos e estreitos.

5. Jogar às escondidinhas e às caçadinhas depois da meia-noite, por estar escuro e se ter bebido penicos e penicos de gin's azedos mas coloridos.

6. Ser cool sem ter um âmago, daqueles que são mesmo âmagos do ser-se pessoa, sem vergonha do que isso possa trazer ou ser. 

7... 8... Hasta el infinito!

A verdade é que eu perdi tempo a falar das pessoas que mostram que não têm nada que fazer. Perdi porque não deixo de me sentir zangada e frustrada. Preocupo-me em saber quem são as pessoas e irrita perceber que muita gente não quer saber de si mesmo. E hei-de eu? 

Eu perdi a vergonha. De ser como sou nunca tive. Perdi a vergonha de, decididamente, criticar os vazios ambulantes que vejo diante de mim. Esses mesmo que me vêem cansada. Hoje orgulho-me das olheiras que tenho!

E isto não é um manifesto. É um desabafo. 



03 outubro 2014

A César o que é de César

Há pessoas sempre iguais. São imutáveis. Permanecem. E sabem tudo. 

O tempo não lhes deve importar muito. Porque sabem, se calhar, sempre o código para quebrar qualquer dúvida ou questão ou problema ou mistério ou o que seja. 

Admirável. Admirável mundo triste de quem se ousa afirmar permanente. Pois nessa tristeza que isso me provoca, há um laivo de sapiência - não existe a inquietude, a herege raiva, a paixão eterna, o idealismo, o amor esteta, a eloquência da maior e enraizada cisma, a poesia. 

Afinal, a única semelhança humana é a ambição. Mas cada um terá a sua. E isso, a mim, não me apoquenta. 

Egoísmo à parte, só a minha me conduz. 



14 setembro 2014

Soluço

As minhas coisas fazem-me tanta falta. Estou com os pés enterrados em obrigações. Estou com as mãos atadas em listas mundanas. Não era nada disto que eu queria. Também não pretendia chegar a este lamúrio. Já nem há por onde fazer rebentar a impetuosidade de outros dias. 



Estou tranquila; apesar de tudo, ainda sei o que são as minhas coisas: são extensas num curto discorrer de palavras, que me assolam por provocações extemporâneas dos outros, das conversas interessantes, dos carros a passar depressa pelo meu, dos muros cravejados de gatos espraiados e sem nada para fazer (basta-lhes existir), das dúvidas intricadas sobre os pensamentos dos outros, das manias das pessoas em ter manias, das certezas sôfregas dos aflitos, das faces admiradas e esquálidas dos curiosos, das mulheres gordas e de mamas nuas na praia, do metro cheio de gente a cheirar a escravidão democrática, da solidão néscia após me despir sozinha na banheira, de correr atrás dos sonhos como quem tem rodas em vez de pés. 



Possivelmente, esqueci-me de infinitas coisas minhas. Não por falta de memória. Estas são apenas as que recordo mais contiguamente ao acto de fechar os olhos enquanto escrevo. 

De repente, parece que está tudo aqui outra vez. Até consigo sentir o cheiro da tinta e o coração a bater certinho. 




13 agosto 2014

Anda tudo com pressa, para cima e para baixo

Desde há pouco mais de um mês andar de elevador tornou-se frequente para mim. Já não é quando saio e chego a casa. Já não é apenas um dos dois elevadores que existem no prédio onde moro. 

Uso, com frequência, mais quatro, que são maiores. Um deles, o meu preferido tem um vidro estalado, como se fosse um corte perfeito que alguém fez ali, para dar conta de alguma coisa que se terá passado, na caixa do sobe e desce que a marcou de forma indelével. 

Por mais estúpido que possa parecer escrever sobre isto, aquela estaladela está ali todos os dias. É parvo, talvez rebuscado, ou até de loucos. Aquela rachadela relativamente comprida, quase perfeita mas que no fim (ou início) curva, visível a todos os escravos que se metem por dentro de caixas que sobem e descem, só vai desaparecer quando mudarem o espelho onde essa se mostra. 

Se isso acontecer, e por que não almejo ser boa pessoa, espero vivamente que o novo espelho, perfeitinho, como se fosse um gajo que faz a barba todos os dias, ou uma gaja que se pinta todos os dias, se estilhace em mil bocados. 

Sim, é isso! A mania da perfeição é um engano. E ainda mais engano se apresenta quando se acha que, após estalar o vidro, borratar o batom, rasgar as calças e partir a unha na porta do carro do namorado (por que estava empenada, culpa dele que não manda compor o raio da porta), as substituições por coisas novas vão correr tão bem que tudo vai ser imaculado. 

E isto... O meu pai já me tinha dito. 


20 junho 2014

prefácio

Há, sim há, pessoas que são livros. Os livros, que são um discorrer de folhas, cheias de palavras, que dizem tantas imensuráveis emoções. Até sentimentos. Até choques que se apalpam, que se tocam. 

Há pessoas que são livros. Há pessoas que são livros cheio de palavras que se dizem, que se calam, que se escondem. Eclodem. 

Há pessoas que são livros sem fim. Tão densas e compostas que há quem só lhes consiga ler o prefácio. 

Mas enfim.